
— Já te saquei.
— …
— Te saquei.
— Eu?
— Você.
— …
— Te saquei.
— Quem é você?
— Meu nome é Setembro.
— Bacana.
— Não vai me perguntar o porquê?
— Não.
— Eu te saquei.
— Sacou o quê, meu camaradinha?
— Tudo.
— Certo.
— Te vejo vir aqui todos os dias. Você se senta aqui, fica a tarde toda, depois vai embora. Nunca embarca. Todo mundo embarca. Menos você, que fica aqui. Eu sei a razão.
— Sabe?
— Quer saber como descobri?
— Não.
— Você está atrás da mesma coisa que eu. Por isso sei tudo sobre você.
— Legal.
— Eu também nunca embarco. Mas, ao contrário de você, nunca vou embora. Alguns vêm, outros vão. Nós os vemos, os observamos. Eu te vejo. Todos os dias. E sei que você também me vê. Você é o único, fora a mim, que nunca embarca. E eu sei o seu motivo. Quer saber o meu?
— Não.
— Quando eu tinha sete anos, a primeira mnemônica que me surgiu foi bobagem, um ensaio para algo maior. Nunca sabia o que vinha antes; junho ou julho, julho ou junho. Então pensei, “por que não lembro? Ora, por que não lembro? Não lembro. Ene, de não, é relativo a junho. Lembro, ele, a julho.” As primeiras letras das palavras, compreende? Junho e julho. Ene, não, e ele, lembro. Braquilogia. Pshh.
— Puxa.
— Mnemônica. É por isso que não vou embora. Tudo tem um padrão simbológico a ser memorizado. Estamos todos interligados; nós, a natureza, os números, os signos, tudo se repete. Eu descobri o código dessas pessoas, elas se repetem, é simples sacar todas elas porque seus padrões são simples. “Cada um dos índios que caminham alinhados uns atrás dos outros pelo atalho trata de pisar a sombra do que segue à sua frente para dar a impressão de que caminha um só índio gigante.” Sahlins. Mas algumas coisas eu ainda não saquei, por isso continuo aqui.
— E pra mijar?
— Tem banheiro ali.
— Caga lá?
— No mato. No banheiro só tem mictório.
— Sensato.
— E as outras coisas: banho, alimentação, moradia, dinheiro, não quer saber como?
— Não.
— Te saquei.
— Legal.
— There is a correct view as to how the rite should be performed and possibly also as to what it is supposed to achieve. But there is no correct experience of it. Gerholm. Dostoiévski tentava encontrar os padrões dos números nas roletas pela sequência dos jogos e dos ritos à mesa, mas o dinheiro e a irmã maluca acabaram com ele.
— A irmã maluca era do Nietzsche.
— Pshh.
— …
— Te saquei.
— …
— Pshh.
— Foi casado, não?
— Sim. Como sabe, mnemônica semiótica? Pelas minhas roupas. Você deduziu pelo meu traço gnosiológico, que, por vestir roupas boas, embora amassadas, não as comprei, foi uma mulher que as comprou. Entre ser minha mãe ou uma esposa, mesmo não tendo aliança nos dedos, você optou pela segunda por aleatoriedade, e acertou. Bom raciocínio. Por isso descobriu que fui casado.
— Não. É que você parece meio biruta, alguma coisa acabou com a sua cabeça.
— Pshh.
— …
— Pshh.
— Por que não joga na loteria?
— Com qual objetivo?
— Ter um lugar decente para cagar.
— Não preciso de dinheiro. Preciso de fatos e sequências.
— …
— Pshh.
— …
— Pshh.
— …
— Pshh.
— Para de fazer essa coisa. Está me irritando.
— Eu sei o motivo de você estar aqui.
— Certo.
— Está em busca de algo nos padrões, assim como eu. Escolhe sempre o mesmo lugar para observá-los. É metódico. Me diz uma coisa, se num certo dia você chegasse e não visse mais esse banco aqui, se o tivessem retirado, o que você faria? Eu sei o que você faria.
— Sentava ali no outro.
— Não. Não faria isso. Ficaria aqui de pé, no mesmo lugar. Seria obrigado a isso para não modificar a sua perspectiva.
— Não. Sentava ali no outro.
— Humff.
— …
— Humff.
— Para com isso.
— Inchhh.
— Vou embora.
— Você vai voltar. Eu sei, é seu código.
— Não vou, não.
— Você vai voltar.
— Para de me seguir!
— Você vai voltar. Eu sei. Você precisa. Aghh.
— Fica longe! Vou te dar um soco, cara!
— Pfhhh. Nehhh. Chiaaa. Hooorn.
[O homem corre para fora da estação, o outro o segue até a rua e volta para a plataforma. No dia seguinte, o homem não retorna, nem na semana seguinte, nem no mês seguinte. O outro homem, o da mnemônica, o do gnosiológico, nunca mais é visto.]







