
- Ilustração: Rafael Sica
Se você quer ser um dos bons, um tal de escritor profissional, vai mandar pra casa do caralho a inspiração que brinca com você. Que te desafia.
Vai morrer, aos poucos, em frente a uma folha em branco; efeito da indiferença dos pais cretinos, do patrão ordinário, das contas atrasadas, da barriga vazia, do bolso sem um puto. Ninguém dá a mínima. Isso tudo, na sua frente. Rindo na sua cara. Te chamando de palerma. E cheio de terror, ou tédio, você vai deixar os demônios saírem. Eles estão fazendo uma festa dentro da sua cabeça, deixando tudo lá dentro uma bagunça danada. E você vai expeli-los, espremer um monte de traumas até algo emergir, feito o pus de uma espinha no meio da cara. A sua cara diz tudo. Dá a letra. Você passou o diabo. Todo mundo vê.
Vai dançar o mesmo balezinho da autocrítica fodida, da autorejeição.
Desiste.
Você acredita neles. Botou fé no papo de que não vale a pena. Agora você é deles.
Quantos da sua laia você conhece que chegaram a algum lugar? Os da sua laia.
Esquece.
Tanta coisa por aí. Manda a ver no empreguinho. Você foi feito pra aquele lava-rápido, pro balcão do Mc’Donalds, pra vassoura e pro pano encharcado com a sujeira dos pés dessa gente indiferente. Escrever é pra padres, médicos, best-sellers, ex-BBBs. Essa gente para quem você empacota a compra no supermercado, empurra o carrinho, limpa a piscina, ri das piadas idiotas pra não perder o salário. Eles te sacam. Mulambo. Encardido.
Desiste.
Inspiração é papo furado. Vão dizer que escritor nasce feito. Como João Antônio, não espere que o Santo baixe, puxe antes ele pela perna.
Alguma coisa vai valer. Mais cedo ou mais tarde.
Você conhece o tal poema.
if you’re going to try, go all the way.
go all the way.




Se você não conhece, não é meu amigo (Parte 5)
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